Segunda-feira, Setembro 08, 2008

Curta interpelação

Me dobra. Me vira. Agora assopra
faz tintilar de agonia.
Me beija. Me lambe. Faz esse estalo
se prolongar numa hora.
Solta a manada. Devora!
Em algazarra e zombaria!
Me acorda. Diz aquele bom dia.

Mr. Six às 4:28 AM

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De um momento sem nome

Aspiração e inspiração de um cigarro
e o nariz endurece em catarro
no susto sufocado do instante
de uma vida desimportante.

O buraco de uma presença que esvai
antes mesmo de poder ter sido.
Cuspe. Sai. E vinga o tato
da textura cinza do granito.

Queima até a ponta. O que dura
desdura cedo. E só aponta
pro espaço torcicolo do vazio.


Eu queria fazer um poema sem locutor - ou com um locutor fantasma que nunca se presentifica - porque é isso que o Sujeito é. Só um fantasma enquanto o Ser desabrocha pelas forças que lhe são imanentes. E o Ser escorre, mal mal se cria e sua vitalidade já vazou por todos os lados e fez deste um momento velho e passado. Por isso esse Sujeito vagueia por aí, morumbático, tentando beber das raras - e preciosas! - fontes que encontra ao longo do caminho. As palavras nesse caso são úteis porque posso carregá-las até ali, além do concreto, no outro lado - onde as coisas ainda são embriões feitos de pura metáfora - e reter como uma esponja a vitalidade do Intenso. A Falta está aí, lógico, onde há o Sujeito - mas só pra ser conjurada pro Extenso, pro concreto, pra onde ela pode também ressecar e passar como folha caindo da árvore.

Mr. Six às 3:29 AM

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Domingo, Abril 06, 2008



Jogando Xadrez Com A Morte

ou

Como Aristóteles Não Entendeu Nada




Empreendimento perigoso, esse - apostar as próprias vidas naquele micro-cosmo do tabuleiro, colocar sua sanidade e santidade em risco - para que mesmo? O peixe Chubby da Choona fuma seu charuto e reclama indignado que está cansado daquelas "ameaças semanais a sua mortalidade". Seaguy, o protagonista, ri-se e comenta "Agradeça por a morte ser daltônica e não conseguir distinguir as peças brancas das pretas". Seaguy e Chooby apostam-se pelo tédio, naquele mundo sem heróis. Apostam-se porque o grande mal unificado do cosmos ("anti-papai") foi destruído, e desde então, não há muita excitação por aí.

A morte certamente não vai ganhar; ao não conseguir captar nem o branco nem o preto, ela tanto não consegue distinguir suas peças das do oponente quanto não consegue perceber os limites dos quadrados no tabuleiro. O jogo está fadado, ele existe simplesmente como uma sub-rotina repetitiva de um mundo que teve seu mal amputado. E ainda assim, a vitória de Seaguy é sempre insatisfatória: ele sempre volta. Ele não volta porque, como um grande além-homem nietzschiano, quer brincar com o universo; ele volta porque naquele pequeno teatro do jogo, e só lá, ele consegue sentir-se vivo de verdade.

O jogo com a morte é um paradoxo e só pode ser resolvido de maneira paradoxal. De um lado nós temos uma pessoa, com seus limites definidos, suas peças e as peças do Outro, espaços e tempos estruturados no tabuleiro, e um 'bem' isolado e específico - a vida - cuja solução binária - vitória ou derrota - define seu status futuro. Do outro lado temos uma morte - domesticada, certamente, uma vez que é uma morte feita osso, ostentando uma máscara de pessoalidade - incapaz de entender o Eu, o Eu que se define em relação ao que não é, uma morte diretamente ativa e diretamente destrutiva, jamais guiada por nenhuma ordem hierárquica - exceto aquela que a submete a ser Pessoa e Jogar nas Regras. Seaguy só se sente vivo quando confrontado com a Morte - o que torna sua vida segunda em relação a uma força primeira. A morte faz-se Pessoa pra tornar Seaguy vivo através do Jogo, e entretanto, ela perde seu poder de ser força primeira que definiria o Eu de Seaguy, uma vez que é forçada a Jogar o jogo das oposições. Ninguém verdadeiramente ganha. Ninguém verdadeiramente perde. Seaguy ganha. A Morte perde. Essas quatro asserções são verdadeiras, mas são mutuamente insuportáveis. O Jogo de Xadrez Com A Morte é um labirinto.

(Uma vez - essa história é literal - perguntei a uma entidade do Outro Lado porque as paisagens que ela me levava a visitar eram sempre tiled, sempre quadriculadas em branco-preto - algumas delas percorridas por um monte de pontos nômades, como formigas. A Entidade me respondeu: "é assim que seu mundo me parece de meu ponto de vista". Eu fiquei por entender. Estaríamos todos passeando por uma miríade de tabuleiros de xadrez?)

Um amigo meu entrou no jogo. Deitado, sem conseguir falar palavra sobre o que lhe acontecia, ele enfrentava questões insolúveis: Você deseja a morte de sua namorada? Se ele se respondesse não, nunca, jamais, de modo algum, estaria demonstrando pela negação ostensiva que sim, desejava, mas não podia admitir conscientemente jamais. Se dissesse sim, desejo a morte dela, mostrava isso que mostrava: estava atado a uma conclusão derradeira, inevitável, e entretanto insatisfatória. Subir a Arvore Das Coisas ao contrário: proceder por tese e antítese até atingir a síntese definitiva, raiz de todas as coisas: eu a amo porque desejo sua morte. Uma única e mesma causa primeira era construída, uma causa despótica, thanateros, a libido e a pulsão de morte (O jogo de xadrez com a morte é uma atividade erótica). Enquanto esta inevitável conclusão dialética é a mais próxima da natureza intensa do desejo - anterior a qualquer extensão em amor ou ódio - ela é a mais distante dela, porque propõe que afinal, todas as coisas são as mesmas em essência. Todas as diferenciações são aparências, sobre as quais operamos nossa dialética a-la-hegel e revelamos as profundezas. O jogo de xadrez com a morte é uma máquina de produzir ilusões; uma máquina de negar o mundo FAZENDO-O ilusão.

Havia, certamente, outra forma de proceder; mas sem dúvida ela não estava nem no brilhante botão branco do SIM nem no obtuso botão preto do NÃO. Não configurava, também, uma resposta extra, uma terceira opção sintética que se opunha as oposições tese-antítese do SIM-NÃO. A Outra forma de proceder, que pode ser chamada de Linha de Fuga, era morrer. Era deixar a morte devorar o Sujeito, desfazer o Eu, desfazendo assim o Jogo, desfazendo assim a Máscara que ela vestia, liberando as potências contidas em todas as coisas (e não a morte "pontual" e "definitiva" que seu aspecto domado faz creer que é, e sim a morte como processo de corrosão molecular, como ingrediente ativo de tudo-o-mais). Essa é a opção onde Seaguy não vence, a Morte não perde, mas ambos vencem verdadeiramente, desfazendo para sempre a totalização - nada de thanateros, jamais desejamos a vida ou/e a morte, simplesmente desejamos, simplesmente fazemos fazer: tudo é produção, tudo é intensidade, tudo é força - uma infinidade de forças diferentes, irredutíveis uma à outra, agenciamento de amor, agenciamento de morte, uma coisa não se realiza na outra nem através da outra. A questão colocada - "você deseja a morte de sua namorada?" - ou o Jogo armado - pretos contra brancos, em quadrados pretos-e-brancos alternados, esse é você, esse sou eu - é que deve ser descolocada a princípio, deve ser desfeito, o tabuleiro e as regras do jogo devem ser desterritorializados. Por isso uma fuga; uma linha de fuga.

Mr. Six às 7:48 PM

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Quinta-feira, Abril 12, 2007

Tudo começou quando toda a matéria do universo estava reunida em apenas um pontinho menor do que a cabeça de um alfinete. E aí aconteceu um monte de coisa que não vou contar porque é spoiler, mas o que importa é que acabamos aqui, nessas linhas. E corremos e dançamos neste mundo louco de eletricidade, computadores, boate, fome na áfrica, robôs menores que células, carros, diversão, símbolos, cruzes, hierarquias, sapos, nuvens, aviões, livros, epistemologias, estátuas, prédios, roupas, pelos, vírus, sebos, drogas, sexo e nonsense. Alguns acham que sabem porque isso tudo, outros sabem mas não podem explicar porque não há palavras. E mais uns outros são poetas bebados esboçando neologismos que possam compreender a enormidade, e pequenez, das infinitas camadas de mundo que se sobrepoem e interlaçam. Estamos aqui; se fomos postos, ou viemos por nossos pés? Nenhuma diferença, Mr. Miles.

Mr. Six às 2:49 PM

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O mundo não faz sentido, portanto nós também não precisamos de fazer.

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